
Auto-retrato - 1797/99.
Da série Caprichos. 22 x 15,3 cm, |
Em 30 de março
de 1746 nasce no pequeno povoado de Fuendetodos, em Zaragoza, Francisco
de Goya, sexto filho do casamento de José Goya - artesão e
mestre dourador - e Engracia Lucientes, de família pertencente à
pequena nobreza aragonesa. Após seu nascimento na casa dos avós
maternos, Goya vive a primeira parte da vida - cerca de 30 anos - em Zaragoza.
Ali começa seus primeiros estudos, inicia sua formação
pictórica (como aprendiz no ateliê do pintor José Luzán)
e faz seus primeiros projetos artísticos.
Entre 1770 e 71 viaja para a Itália, para completar
sua formação, e reside durante longa temporada em Roma,
convivendo com o grupo de artistas da Via Condotti, especialmente com
o pintor polonês Teodoro Kuntz. A Itália viria a ser muito
importante na trajetória artística de Goya, não só
porque ali pôde aprender e experimentar diversas técnicas
(como afresco) ou copiar da realidade algumas obras que lhe interessavam
e que serviriam como ponto de partida e catálogo de imagens para
suas realizações posteriores, mas também porque permitiu
a ele manter contato direto com a 'grande pintura' italiana e européia,
fortaleceu seu caráter como pessoa e pintor, motivando maior ambição
artística e preparando-o para alcançar os mais elevados
objetivos.
Após voltar da Itália em 1771, Goya é
incumbido de pintar um afresco numa das abóbodas da Basílica
del Pilar de Zaragoza, onde realiza um trabalho realmente magistral.

Carlos V Lanceando un Toro en la Plaza de Valladolid
1814/16. Da série Tauromaquia. 25,4 x 35,6 cm, |
Em Madri, no ano de 1773, casa-se com Josefa Bayeu, irmã
de um dos acadêmicos mais influentes e Pintor do Rei, Francisco
Bayeu, e de seu companheiro de formação artística
em Zaragoza, Ramón Bayeu. Esta família de pintores acadêmicos
aragoneses, com os quais estreitou laços de parentesco, abre-lhe
as portas da Corte.
Começa a pintar retratos da alta nobreza madrilena
em 1783.
É nomeado Pintor do Rei em 1786. Durante esses
anos Goya pinta e recebe muitas encomendas por intermédio de e
com a tutela de seu cunhado, Francisco Bayeu. No princípio, muitas
de suas pinturas estavam impregnadas do espírito e da estética
academicista em moda na Corte espanhola, das quais Goya foi se libertando
pouco a pouco - conforme conquistava maior independência artística
e econômica com relação a seu cunhado Francisco Bayeu
-, e alcançando um estilo muito pessoal, mais eclético em
suas referências e soluções estéticas, em que
já podemos descobrir alguns aspectos de sua genialidade, apaixonada
expressividade e premonição de sua obra da maturidade.
Ao conquistar prestígio na Corte, cada vez mais
livre e seguro de si, Goya é nomeado em 1789 pintor do rei Carlos
IV. Essa honraria e o reconhecimento artístico que lhe foi outorgado
deram a Goya novas possibilidades e maior força para fazer a sua
pintura. Mas não é esse o motivo principal pelo qual aprofunda
de maneira particular o modo de interpretar o ser humano e seus espaços.
Em 1792 Goya sofre grave enfermidade em Cádiz,
levando-o à inatividade durante cerca de dois anos e provocando
nele uma surdez irreversível. A forçada falta de comunicação
com o mundo o leva a um estado de maior concentração e profunda
reflexão sobre a sua pintura, a condição humana e
a sociedade da sua época.

Y no Hai Remedio - 1810/15
Da série Desastres de la Guerra. 14,2 x 16,8 cm, |
Goya participa ativamente dos círculos cultos e
liberais da Corte espanhola, muito sensibilizados pelos acontecimentos
que se sucediam na Europa desde o início da Revolução
Francesa (1789), e afirma paulatinamente seu caráter independente
e hipercrítico a respeito de temas e assuntos que definiam a situação
do Antigo Regime em que se encontrava a Espanha, tanto em seus fundamentos
sóciopolíticos quanto nos costumes, criticando a sociedade,
o estado clerical, a nobreza parasitária, combatendo a Igreja como
instituição de controle social, a Inquisição,
atacando duramente o casamento como convenção social, a
hipocrisia como norma de conduta, a realidade da prostituição,
a mendicância etc. Essa reflexão profunda e comprometida
se traduz em imagens na série de gravuras Los Caprichos (1797/99),
sem dúvida um dos documentos visuais mais certeiros, incisivos
e francos criados por um artista sobre seu tempo, visto ser extraordinário
em sua concepção plástica e perfeição
técnica.
Aos 53 anos de idade, chega ao reconhecimento oficial
máximo que um artista poderia conseguir em vida na sua época.
Começa, em 1800, o retrato coletivo da família
de Carlos IV, sua consagração definitiva como pintor independente
e anticonvencional, ao mesmo tempo em que suas interpretações
psicológica e ideológica eram rechaçadas por parte
dos monarcas retratados, motivando seu afastamento de novos trabalhos
para a realeza. Os primeiros anos do novo século são de
intenso trabalho - fundamentalmente em retratos - e de ilusão por
uma mudança política e cultural previsíveis.

Disparate Ridìculo - 1819/23
Da série Disparates. 24,7 x 35,8 cm, |
Em 1808 o monarca espanhol abdica em nome do filho por
pressão política da França. Os exércitos franceses
de Napoleão ocupam territorialmente o país, chegando a impor
José Bonaparte como novo rei da Espanha. Goya, como outros 30 mil
chefes de família, jurou 'amor e fidelidade' ao rei estrangeiro.
E, como muitos liberais, confiava na chegada de uma nova monarquia constitucional,
na profunda transformação da sociedade e dos costumes, na
consolidação de um ambiente culto, esclarecido, racionalista
e liberal na Espanha. Mas o que havia sido, em princípio, uma 'revolução
controlada', que trazia a esperança, converteu-se pouco a pouco
em mera justificativa das aspirações expansionistas de Napoleão
e em uma guerra aberta de conquista francesa e independência por
parte dos espanhóis.
Goya, como a grande maioria dos espanhóis cultos
e liberais, sofre na carne e no espírito as contradições
e conseqüências desse conflito de idéias - renovação
e liberalismo de um lado e nacionalismo e resistência de outro -,
o que, sem dúvida, foi uma amargura para ele durante as últimas
décadas de sua vida, reforçou seu ceticismo e encheu de
pessimismo suas criações mais pessoais e reflexões
vivenciais e estéticas.
Inicia o ciclo de desenhos e gravuras que constituirá
mais tarde, em 1810, a série Los Desastres de la Guerra, documento
visual excepcional das realidades e seqüelas de toda a guerra, em
que Goya afirma com horror sua condição de testemunha -
"Yo lo he visto", escreve sob algumas das imagens.
Em 1812 morre sua mulher. Um ano depois acaba a Guerra
de Independência espanhola, coincidindo com a deterioração
do poder imperial napoleônico.

Volaverunt - 1797/99
Da série Caprichos. 15,2x21,9 cm, |
No ano de 1814 regressa Fernando VII, filho de Carlos
IV, em quem os liberais nacionalistas espanhóis haviam colocado
todas as suas esperanças, resistindo e defendendo a Constituição
de Cádiz. Esta ilusão, porém, se desvanece muito
rapidamente: o rei decreta a abolição da Constituição,
persegue os liberais e inicia um severo expurgo contra os 'colaboracionistas'.
Entre eles se encontra Goya, que sofre a perseguição e investigação
do Palácio e da Inquisição. São anos de situação
delicada para o pintor: perseguido, forçado a uma grande atividade,
pintando retratos para ganhar o favor de seus protetores ou acusadores,
em um país em que a vertente reacionária recrudesce. Cada
vez mais só e inseguro pela fuga e pelo exílio de seus amigos
liberais, trabalha em nova série de gravuras - La Tauromaquia,
Los Disparates -, se isola do mundo e da família (apenas reconfortado
pela companhia da jovem Leocadia Weiss).
Adquire uma nova residência em 1819 - a Quinta del
Sordo - que será seu penúltimo refúgio pessoal e
artístico. Tem uma grave enfermidade que quase o leva a morte.
Um ano depois, aos 74 anos, começa a pintar nos
muros de sua casa um ciclo de temas e imagens realmente excepcional e
diferente, clandestino, hermético, esotérico - Las Pinturas
Negras. Com cenas e personagens os mais terríveis, ou alegorias
inquietantes, Goya oferece um amargo resumo de sua própria pintura
e razão de ser, uma síntese definitiva de sua vida, dos
muitos anos que pôde viver tão perigosamente, das muitas
ilusões perdidas ou deixadas de lado, de suas incertezas e as de
outros como ele que acreditaram no triunfo de um novo mundo, e tudo velado
por uma densa atmosfera de melancolia e tristeza.
Alarmado pela reação antiliberal, Goya se
muda, em 1824, para uma estação de águas na França,
colocando a distância como meio de maior segurança. Visita
Paris e depois se instala, com Leocadia Weiss, em Bordeaux, onde encontra
alguns de seus melhores amigos exilados. Em ambiente mais tranqüilo
e com a máxima ilusão, aprende a técnica da litografia
e aperfeiçoa os seus conhecimentos e capacidades expressivas nesse
meio gráfico tão recente. Los Toros de Burdeos foi o último
ciclo que Goya fez pouco antes de morrer.

La Desgraciada Muerte de Pepe Llo en la Plaza de Madrid
1814/16. Da série Tauromaquia. 24,9 x 35,5 cm, |
Entre 1827 e 1828 viaja por breves períodos a Madri,
para pôr em ordem assuntos econômicos da família. Nessa
época, além de desenhos e provas litográficas, Goya
faz algumas de suas melhores pinturas, principalmente retratos, entre
os quais se destaca La Lechera de Burdeos.
No inverno
de 1828, adoece. Aos 82 anos, na noite de 16 de abril, morre em sua residência
de Bordeaux, acompanhado por uns poucos amigos, Leocadia Weiss e seu neto
Mariano. O pintor, que tanto tempo e tantas coisas viu passar e suceder
diante de seus olhos e que de maneira tão pessoal e profunda soube
expressar, dá por finalizado o seu contrato desigual com a vida.
Longe da Espanha.
Informações e imagens
retiradas do site
http://www1.uol.com.br/bienal/23bienal/especial/pego.htm
em 23/04/2007
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